Fevereiro 2012
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locomovida
jorgeano trabalhava na estação. limpava trilhos, guiava cegos, ciscava grãos. jorgeano alimentava pombos com sementes e seus sonhos com pedaços de ilusão. todo dia ele chegava cedo, ele saía tarde, ele varria chão. belo dia, jorgeano, ninguém viu no seu vagão. embarcara o trem da vida pra seguir seu coração
tenho ganas do que não sou
tenho medo do que posso ser
v[e]iandante
sangue de andarilho não anda, rasga a veia com milhas e milhas de inquietação. parte todo dia pr’uma romaria sem rumo - sem rodas, sem perdas e sem perdão. cem mil anos de peregrinação
pessoas que seguem o gramaverde
eu também tenho um tumblr “normal” (não) mas clica pra ver
e se nunca?
é quase alívio que ninguém pergunte o que não vou saber. vai ser um quando eu souber dizer
dez coisas que relevo em mim, três
meus hemisférios se chocarem de tal modo, pra nem razão nem sentimento se adonarem do destino
hoje somos
hoje faz um ano que fez frio numa tarde de verão, que um satélite trocou a noite pelo dia pra testemunhar uma perseguição. que pés trêmulos seguiram fios de trigo sobre uma trilha de pedra, e uma mensagem às cegas fez dar cabo da razão. hoje somos, coração
dez coisas que relevo em mim, dois
às vezes vou ali e esqueço de voltar
dez coisas que relevo em mim, um
guardar o amor até que exploda sobre a tua pele
alice não tem relógio
que falar de alice, que veste muita flor mas não sabe a diferença entre rosa e margarida? não pisa com nada que leve tacos e tem epifanias em banheiros onde é só visita. tem doze gatos dos quais trocas os nomes, e às vezes inventa novos porque esquece alguns, e duas plantas que só rega quando pensa em outra vida
tem amnésia no peito, algo como quando a gente ama uma ideia às duas e às seis nem...
a_fluente
como anda estranho o mundo com esse afã familiar. me lembrava só do hiato que um decênio me emprestou, mas depois desses colchetes as primevas inquietudes me vieram visitar. de novo não faz mal. a vida precisa de um tormento pra ver o seixo rolar
a vida segue
um roteiro muito bem escrito (com atores muito mal treinados) e sem edição. uns cortes apenas
entre todos os quereres
então que tens, entre um mundo e outro (digo, o dos sonhos e o de sonhar), uma malha caprichosa que se rasga com um troço não-se-sabe-o-quê, que estaria entre o desdém e a adoração. depois disso tu te encontras nalgum limbo, entre o que aspirava e o que se perdeu; e, pra resgatar qualquer deles, ficas esmagado nu em pelo, entre a renúncia e a fé. enfim, tens uma busca insolúvel, entre a lógica e o...
dois jarros e um copo de leite
me ame do meu jeito ou me deixe só. assim se lê nos olhos de qualquer felino que se preze, seguido da esquiva petulante pra fugir de um afago inepto. sei bem, foi deixar de ser um cão pra ver que o preço da leveza dos passos é perder o riso fácil e a vontade de lamber o mundo
vai ser lua cheia
pr’esta noite, nada. só o silêncio insosso, a censura cega, o hedonismo solo. e uma dama solitária me cuidando da janela
compressas
mais fácil que esquecer promessas, prometer
sem miasmas (ou quase molhados)
felicidade começa com chuva no telhado e cheiro de fósforo queimado. tem um tanto de resfolegar na nuca e muito de se apaixonar por um quê, que não sei de onde, mas que de vez em quando brilha nos olhos de quem não fala. e é uma outra coisa também, mas eu não posso falar agora. o som macio de bonança me chamou na sacada
Janeiro 2012
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disseram que tinha de ser assim
eventualmente teremos os mesmos medos que todos temos. ensaiaremos crer no acaso como se o acaso houvesse e culparemos o destino pela nossa incompetência de querer. seremos, cedo ou tarde, os mesmos que fomos no início de tudo, pondo novamente um mundo a perder. tá tudo bem; enquanto nascermos de novo, há novos erros que podemos perdoar e cometer. viver é um segundo que só parece não ter fim
uma vez
inventaram que a vida precisava de sentido. de procurar, esquecemos a direção. fim
que andam sussurando em versos e trovas
de uns tempos pra cá, acordo feliz e rio por pouco, mas nunca pouco. acarinho com toda ternura que tenho pra dar e marejo sozinho quando estou acompanhado. meu sonho de ser recíproco tem me levado. e será?
essas gentes
as gentes que vivem pela, nem digo da poesia, choram canções que as outras gentes não podem ver. não findam o dia se a noite do mesmo não se interromper; sabem que morre-se um pouco se o sol se põe sem lhes ter. as gentes que sofrem por outrem, que regozijam no amor, que vivem menos na terra do que nas terras do crer, são de uma raça que faz o mundo girar, que faz a vida valer, que faz o tempo...
o artista de verdade tem motivações particulares, que contrariam o que o mundo...
os poréns e um pouco mais
não me pergunta nada, nem responde, nem me sonha, qu’inda não tenho nuvem bastante pra gente pisar. meu pé de feijão cresceu demais, a chuva demora a cair agora e eu comprei bilhetes pr’onde o sol se põe. também tem os livros que comecei a folhear, os silêncios que me aguardam no fim do dia, as canções que vieram me ver de manhã. ainda assim, fica perto se der. teu pãozinho do céu me...
meio-fio
um gato ferido grita, sentado à beira da estrada: eu posso, eu amo, eu quero ser amado. mas continua sentado
não sei. eu deveria saber?
bem querer é acreditar
se perdeu a poesia no afã do imediato. foram séculos de amores impossíveis, escritores nos telhados, cortesãs em devaneio, mas agora, só o agora se permite, só o segundo basta pra viver a eternidade. ser romântico é tormenta pra quem vive de esperar - mas o que são os ponteiros pra quem sabe bem amar?
do parapeito
tá aqui meu pulso formigando de vertigem. tá ali o vazio me seduzindo, a meio palmo do meu peito. eu nunca soube se isso é medo de pular ou se o desejo insopitável de um voo perfeito
deixa doer
deixa doer o nosso desencontro infortunado. deixa passar esse pesar de mais um desenlace indesejado. deixa, meu anjo, que aquele amor que nós vivemos seja assunto superado. no caminho pro teu céu, esquecer o que nós fomos é o pedágio combinado
Dezembro 2011
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mas é claro que o sol...
nos recomeços, cada primeira vez é feita de saudade - e são precisas muitas primeiras vezes pra recomeçar
esses eclipses que a vida tem
por que é sempre depois do meu anoitecer que todos os sóis resolvem brilhar?
de longe, tudo pode ser perfeição
ciranda, cirandinha
a roda da vida é rebelde, e gira cada vez mais depressa; mas os freios são por conta nossa
capítulo dois, recomeço
cada página que a gente vira concorre pra esquecermos como tudo começou. de tantos pontos finais, não se pena pra encontrar o ponto de recomeçar
sobrevivência ou morte
nenhum mistério, nem sentença pro crime de me esvanecer. meu maior talento sempre foi morrer dentro de ti
somos poucos
somos muitos à procura dos poucos que somos
rios
verteremos, de todos os poros, o pranto que nos restou. destilaremos cada gota de esperança inútil pra sorver intacta, no fim, a ternura que nos amalgamava. e será nossa única lembrança - cristalina e incólume em nossas artérias saudosas
não se recupera o que já não se tem
senti falta do teu beijo aqui fora, mas como, se já tinha esquecido aí dentro?
quisera
queria ser eu incorpóreo ou tu fortaleza ou nós um abraço-quimera. quisera, não se pode ter tudo - mas com a ternura eu posso ficar
pra quem não sabe flutuar
que enjoo que dá, isso de apostar na vida sem saber se vai dar pé
precisamente
preciso ir. preciso viver. preciso ver a noite vir
partidos
melhor que eu, tu sabes aonde vamos chegar. aquela bifurcação não pode mentir
se mudo ou não
já do início, as malas estão prontas, a porta aberta e os olhos fechados. o fim é um adeus emudecido
quando as cortinas abrirem
enquanto for só tristeza, dá pra levar ao fim o ato sem dar cabo do espetáculo. dá pra viver a agonia dessa peça sem chorar nem se partir, mas, se sabe, não dá pra encenar esse finalmente pra sempre. sem desastre não se faz história
capítulo um, fim
e é assim que a gente conta, os começos e os finais. tenho a impressão de que de meios a vida já é cheia
e o que resta
desejam-te secretamente as frestas do outro mundo, as arestas do teu entorno, as florestas em que não vives. te rodeiam os desencontros da vida, que não é mais teu novo brinquedo - e te divertes desdenhando dela
Novembro 2011
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vim desgraça
eu que num acaso descasado do destino nasci gente, tenho mais de coração que de couraça, menos razão do que raça - também quero ração de “quando te quero, chamo”. eu que não amo de graça
sobra-me desatino
por quem meus sinos se desdobram
os zês de oz
às vezes dormir resolve. devolve um pouco da esperança de chegar ao fim do dia sem matar leões, sem perseguir uns corações de lata. espanta um tanto da tristeza que sobrou de ontem e faz as juras de ao menos mais uma noite pra poder sonhar
em defesa
se somos réus do crime de viver, não é a cama o nosso tribunal, onde os lençóis nos testemunham a fraqueza entorpecente e o travesseiro vem julgar o erro renitente e o sonho verte de desejo penitente? só há de ser. é ali que perdemos o juízo
oca
que linda essa casa, que secas as almas, que oco o mundo