inventaram que a vida precisava de sentido. de procurar, esquecemos a direção. fim
de uns tempos pra cá, acordo feliz e rio por pouco, mas nunca pouco. acarinho com toda ternura que tenho pra dar e marejo sozinho quando estou acompanhado. meu sonho de ser recíproco tem me levado. e será?
as gentes que vivem pela, nem digo da poesia, choram canções que as outras gentes não podem ver. não findam o dia se a noite do mesmo não se interromper; sabem que morre-se um pouco se o sol se põe sem lhes ter. as gentes que sofrem por outrem, que regozijam no amor, que vivem menos na terra do que nas terras do crer, são de uma raça que faz o mundo girar, que faz a vida valer, que faz o tempo parar sem querer. é nos olhos dessas gentes que a luz do mundo se faz entrever
não me pergunta nada, nem responde, nem me sonha, qu’inda não tenho nuvem bastante pra gente pisar. meu pé de feijão cresceu demais, a chuva demora a cair agora e eu comprei bilhetes pr’onde o sol se põe. também tem os livros que comecei a folhear, os silêncios que me aguardam no fim do dia, as canções que vieram me ver de manhã. ainda assim, fica perto se der. teu pãozinho do céu me fez sorrir essa noite
um gato ferido grita, sentado à beira da estrada: eu posso, eu amo, eu quero ser amado. mas continua sentado
se perdeu a poesia no afã do imediato. foram séculos de amores impossíveis, escritores nos telhados, cortesãs em devaneio, mas agora, só o agora se permite, só o segundo basta pra viver a eternidade. ser romântico é tormenta pra quem vive de esperar - mas o que são os ponteiros pra quem sabe bem amar?
tá aqui meu pulso formigando de vertigem. tá ali o vazio me seduzindo, a meio palmo do meu peito. eu nunca soube se isso é medo de pular ou se o desejo insopitável de um voo perfeito
deixa doer o nosso desencontro infortunado. deixa passar esse pesar de mais um desenlace indesejado. deixa, meu anjo, que aquele amor que nós vivemos seja assunto superado. no caminho pro teu céu, esquecer o que nós fomos é o pedágio combinado
nos recomeços, cada primeira vez é feita de saudade - e são precisas muitas primeiras vezes pra recomeçar
por que é sempre depois do meu anoitecer que todos os sóis resolvem brilhar?
a roda da vida é rebelde, e gira cada vez mais depressa; mas os freios são por conta nossa
cada página que a gente vira concorre pra esquecermos como tudo começou. de tantos pontos finais, não se pena pra encontrar o ponto de recomeçar